MANIFESTO DA INSUBMISSÃO DOS CORPOS
Quando finalmente proibirem os meus deuses, os meus porres e os meus amores corriqueiros, além de matarem a minha profissão de ensinar aprendendo, já sei como agir. Vou montar um estoque de velas de sete dias e com elas tentarei reconhecer, com um fiapo de luz que me guiará nos escuros, a minha turma. Buscarei os que batem cabeça nos gongás, sabem das gumas e catimbozeiam fuzuês nas tabocas severinas, alumiando o breu para que algum mestre do babaçuê beba a jurema no coco e me fale de outro mundo.
À supremacia dos ternos bem cortados e roupas de grife, sei que ainda
haverá gente capaz de vestir o mistério com manto do Divino e o filá de
Obaluaiê. Malocados nas roças escondidas, acharei no fundo de algum armário os brincos
de Tóia Jarina, o cocar do bugre, um quepe de marujada, o linho S-120 dos pilintras,
camisas de times de várzea, gibões de couro e saiotes femininos, feitos com as
folhas da jussara e enfeitados com miçangas coloridas. Eles estarão ali para
adornar os corpos que insistirão em dançar livremente.
O projeto de normatização da vida na cidade encarada como empresa
pressupõe, para que seja bem sucedido, estratégias de desencantamento do mundo
e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre
ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão da
mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura do
estupro e da violência: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo
domesticado e o corpo poderoso. Todos eles doentes.
Para combater um projeto que necessita do adoecimento das gentes, regado
a muita água benta e caixas de tranquilizantes, só nos resta fazer o simples. A vida terá que ser reinventada no vazio, que pode ser o do desanimo mas
pode ser também o da criação do sincopado. Discursos não verbalizados,
burladores das cultas gramáticas, terão cada vez mais que se manifestar a
partir dos corpos que transitam na desafiadora negação da morte, como são os
corpos-cavalos das canjiras de santo e giras de lei.
Aqueles comprometidos com
a tarefa da reinvenção do país que morre não poderão se esconder mais apenas em
seus aparatos teóricos, leituras clássicas, ideologias redentoras das vítimas
da fome e outros babados. Aqui falaram aguerés, cabulas, muzenzas, barraventos,
avamunhas, satós, ijexás, ibins e adarruns. As folhas foram encantadas pelo
korin-ewé que chamou o mestre condutor de Arôni, o Katendê dos bantos, e
Malunguinho anunciou o juremá quilombola nas praias de Alhandra. Morená é
encantaria e as urnas marajoaras são, paradoxalmente, exaltações vigorosas da
vida ao pensar que o lugar de repouso e revitalização dos nossos mortos é o
insondável da criação humana: arte. Os toques do tambor são idiomas que criaram,
nos cantos mais inusitados, espaços de encantamento do cotidiano; terreiros de
todos os tipos. Ou se fala disso como estratégia
de luta ou nós estaremos de fato mortos.
Nossa tarefa não é apenas
resistir a alguma coisa. Resistir apenas é permitir que o outro nos paute
dentro de seu projeto de normatização pela chibata, pelas sagradas escrituras,
pelos diplomas e pelos remédios que entorpecem o corpo para adequar as almas.
A luta é essa: precisamos de corpos fechados ao projeto domesticador, normatizador e disciplinador que se inscreve no domínio colonial dos corpos adequados para o consumo e para a morte em vida. Precisamos de outras vozes, musicadas, atravessadas de batuques-toques e tarantantans. E precisamos da sabedoria dos “cumbas” e de suas artimanhas de viver produzindo encantarias libertadoras no precário.
Só os corpos entendidos como assentamentos
animados, gongás feitos de sangue, músculos e ossos, carregados de pulsão da
vida, poderão sobreviver. Nós estamos perdendo e meu estoque de velas está
preparado para o segundo tempo. Resta agir e apostar que nas frestas, entre as
gigantescas torres empresariais e arenas multiuso, os couros percutidos
continuarão cantando, mesmo proibidos, a vitória da vida sobre a morte no
terreiro grande. Pairando sobre o desencanto, estejamos atentos para escutar no
vento a gargalhada zombeteira dos Exus. Eles não sabem reconhecê-la. Ela é, também por isso, o nosso “uni-vos” necessário.
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