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O ANJO DA HISTÓRIA E A PEDRA DE EXU (PARA LER OUVINDO MANGUEIRA / 2019)

É bastante conhecida a interpretação que Walter Benjamin faz, nas Teses sobre o conceito de História , da imagem do Angelus Novus, de Paul Klee. Não custa relembrar o belo trecho: Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso. Na percepção de Benjamin,...

TAMBORES - BREVE INTRODUÇÃO

Os atabaques dos rituais brasileiros conversam o tempo inteiro. Cada toque guarda um determinado discurso, passa determinada mensagem, conta alguma história. O tocador dos tambores rituais precisa conhecer o toque adequado para cada orixá, vodum ou inquice. Se o drama representado pela dança de um orixá se refere ao combate, o toque é um; em geral com características marciais. Se a ideia é contar através da dança sacra uma aventura  de paz, o toque é outro. Há toques para expressar conquistas, alegrias, tristezas, cansaço, realeza, harmonia, suavidade e conflitos. É importante lembrar que um xirê , a festa de candomblé, é o momento em que os orixás baixam nos corpos das iaôs para representar - através da dança, dos trajes e emblemas - suas trajetórias míticas. Através da representação dramática, a comunidade se recorda do mito e dele tira um determinado modelo de conduta. As danças, ao contar histórias protagonizadas pelos orixás, servem de exemplo para os membros do grupo. Em suma...

MANIFESTO DA INSUBMISSÃO DOS CORPOS

Quando finalmente proibirem os meus deuses, os meus porres e os meus amores corriqueiros, além de matarem a minha profissão de ensinar aprendendo,   já sei como agir. Vou montar um estoque de velas de sete dias e com elas tentarei reconhecer, com um fiapo de luz que me guiará nos escuros, a minha turma. Buscarei os que batem cabeça nos gongás, sabem das gumas e catimbozeiam fuzuês nas tabocas severinas, alumiando o breu para que algum mestre do babaçuê beba a jurema no coco e me fale de outro mundo. À supremacia dos ternos bem cortados e roupas de grife, sei que ainda haverá gente capaz de vestir o mistério com manto do Divino e o filá de Obaluaiê. Malocados nas roças escondidas, acharei no fundo de algum armário os brincos de Tóia Jarina, o cocar do bugre, um quepe de marujada, o linho S-120 dos pilintras, camisas de times de várzea, gibões de couro e saiotes femininos, feitos com as folhas da jussara e enfeitados com miçangas coloridas. Eles estarão ali para adornar os corpos q...